quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os lados de Yulia

(Árvore... árvore... árvore).


Era tão bonito o jeito como ela repetia esta palavra sem a menor pretensão de parecer coerente consigo mesma ou com os outros. Era mais bonito ainda o modo como ela tropeçava a língua no céu da boca ao pronunciar, com pouca intimidade, a letra "r".

Era descendente de russos. Interpretava algumas letras com demasiada intensidade, até certa rispidez. Yulia  herdara os cabelos alaranjados da avó materna, bochechas acentuadas, um nariz reto, longo e sem qualquer desvio - o que lhe rendia um ar de seriedade diante das sardas ostentadas em boa parte do rosto pálido. Tinha pernas femininas, torneadas pela dança. Era uma mulher longilínea, com o quadril estreito, discreto, assim como todas as mulheres da família.

O corpo de Yulia não era másculo, mas um tipo incomum entre as brasileiras. Era uma mulher pouco temperamental. Poucos sorrisos, poucos gestos, uma mulher fria - diriam alguns homens que tentaram se aproximar de Yulia. Mas, quase nenhum deles sabiam que a poesia era um costume e o refúgio de Yulia.

Ainda moça, escondia-se no fundo da casa para fumar e escrever. Eram tantos os rascunhos secretos que poderiam lhe render alguns livros, quem sabe duas, três edições.  Os escritos transpareciam, quase sempre, uma alegria profunda que Yulia sentia pela vida confrontando um eterno e profundo sentimento de tristeza. Injustiça! Yulia era sim uma mulher sensível. A tristeza profunda que carregava nos olhos caídos, nos ombros curvos, nas mãos trêmulas, revelava o lado sensível daquela mulher. Pouco sabia sobre ser amável, mas muito entendia de sentir o peso da alma dentro de si. Pois, nas cartas que escrevia para si mesma, deixava transparecer a insatisfação com aquela condição que ela própria se impusera.

Isolou-se do mundo para não ouvir o vento sussurrante, os rostos passageiros nas ruas, as palavras esquecidas tão facilmente. Preferia guardar as palavras na memória, registrá-las em uma espécie de relicário, para que a fraqueza dela não fosse vergonhosamente exposta em vida. Seria muito cruel. Muito cruel - assim pensava Yulia - até que sentiu a tristeza atingir o coração.

Foi em uma noite fria de agosto, Yulia tragava um cigarro lentamente soprando a fumaça contra a cortina que assanhava-se ao ser tocada pelo vento frio do jardim. Escrevia lentamente, poucas palavras - era necessário precisão para que saíssem verdadeiras. Foi quando sentiu levemente uma dor lhe apertar o peito. Aos poucos, percebeu que, na verdade, a dor que antes parecia lhe rasgar a pele, invadira a alma. Uma dor profunda, que penetrava lentamente o coração de Yulia.

Deixou que o cigarro escorregasse, queimando-lhe as pontas dos dedos. Tentou gritar, a dor calara a voz. Encostou-se nas paredes e sujou-as de sangue, mesmo com as mãos limpas. Descalça, correu até o jardim escuro, com pouca visão, enterrou as mãos na terra úmida e chorou.

De manhã, sentiu o sol nascendo em seu rosto, pouco enxergava, estava claro. Olhou em volta, muita gente conhecida. Parentes, amigos distantes, vizinhos, curiosos. Talvez, centenas de pessoas. Era uma festa? - pensou Yulia. Não, longe de ser.

Ainda sentada na grama úmida, Yulia reconheceu uma tia próxima. A pele clara da senhora avermelhou. Yulia só a via deste tom quando chorava, algo raro. O grupo de pessoas não notou a presença de Yulia. Descalça e com a roupa suja de lama, a mulher caminhou entre parentes, amigos distantes, vizinhos e curiosos. Demorou até conseguir defrontar-se com o caixão no centro da sala de estar. Esticou-se um pouco mais, três ou quatro passos para chegar até o caixão.

Olhou bem perto mas não conseguiu identificar quem estirava ali, moribundo, tornando-se assunto do lamento alheio. Um véu branco e bordado de renda cobria o rosto do falecido. Yulia puxou o véu com cuidado... paralisou o olhar. Reconheceu o falecido. Como não reconhecer? Se era ela própria - Yulia!

Ela parou diante da imagem de si mesma. Na multidão, procurou a tia próxima que havia reconhecido ao acordar. Depois de encontrá-la, chacoalhou-a com toda força. Yulia gritava e perguntava a tia próxima: - Não me reconhece? Não está me vendo, tia? Estou viva. Eu! Aqui, bem na sua frente.

A tia próxima de Yulia olhou friamente nos olhos da sobrinha, aproximou-se do rosto dela, beijou-lhe a face com ternura e disse: - Eu sinto muito. Seguiu adiante, caminhando lentamente.

Yulia andou sem destino, descalça, ainda suja de lama, andou, andou, andou até sentir-se exausta. Entre as árvores que cercavam a estrada da casa dela, Yulia adormeceu.  Estava intrigada com a ideia de estar morta, no momento da vida em que mais se sentia viva!

Na outra manhã, Yulia acordou com uma voz doce e distante. Abriu os olhos com esforço e reconheceu o som daquela voz - Mãe? Levantou-se ainda cansada. Olhou os pés que agora estavam limpos. Vestia uma calça jeans e uma blusa de malha colorida. Correu até o banheiro. Quase não se reconheceu diante do espelho. Era uma mulher nova, uma jovem, adolescente. Sem exitar, pela primeira vez, sorriu porque tinha vontade.

2 comentários:

Eduardo Ferreira disse...

essa cena da fumaça batendo contra a cortina ficou presa do lado de cá um tanto...

demais.

Marcela Franco disse...

Perfeito, surpreendente e profundo. Amei!