sábado, 25 de setembro de 2010

O sonho

Diferente da maioria das vezes, naquela noite, Luisa preferiu dormir com as janelas abertas, queria sentir o vento lhe afagar as pernas. O sopro da brisa que assanhava as cortinas, também folheava as cópias dos poemas que deixara pela metade e lhe acariciava as pernas, como as mãos de outra mulher. Luisa dormia um sono leve quando ouviu a porta do apartamento em que morava se abrir lentamente. Ainda de olhos fechados, esticou os braços para tentar alcançar o abajur. Não conseguiu. No escuro, ao levantar-se, de olhos fechados, sentiu a cabeça pesar. Sentada na beira da cama, Luisa balançou os pés em busca das sandálias, derrubou a garrafa de vinho vazia.

 Lentamente, caminhou até o andar de baixo e, ainda no escuro, diante do espelho, abafou o grito. Por alguns segundos, estranhou a própria imagem. Não eram apenas os cabelos tingidos de vermelho, era como se estivesse em frente a outra pessoa.  Ao acender as luzes, procurou, mas não viu ninguém. Enconstou os ouvidos e as mãos na porta de entrada do apartamento, nenhum suspiro.

Angustiada com a idéia de ter um estranho dentro de casa, abriu a porta, vasculhou o hall do elevador com os olhos, novamente, nenhum sinal. Luisa buscou um copo com água na cozinha e voltou para o quarto escuro e frio. Antes,  mais uma vez, diante do espelho gigante da sala de estar, parou e observou as manchas de vinho pelo corpo coberto apenas por uma blusa branca que vira o avô usar algumas vezes nos almoços de domingo. Estranhou, pois, não costumava guardar pertences de pessoas mortas. Luisa levantou a roupa até a cintura e assustou-se com as marcas vermelhas nas pernas. Era como se alguém houvesse lhe apertado com força. Sentou-se na borda do sofá, ainda com o copo nas mãos, e tentou se lembrar do que havia acontecido mais cedo. A cabeça doía muito, decidiu descansá-la no travesseiro.
No quarto, Luisa deitou na cama e caiu em um sono leve. Pouco tempo depois, ouviu o ranger da porta, novamente. Levantou-se e correu para sala, a procura do telefone. A porta estava entreaberta. Do lado de fora, um homem ainda jovem, com pouco mais de 30 anos, sério, alto e magro. Luisa aproximou-se, pela fresta, procurou os olhos do homem no escuro. Era difícil perceber os detalhes do rosto dele. Mesmo sem reconhecê-lo, Luisa não sentiu medo. Abriu um pouco mais a porta e descobriu que o estranho tinha olhos castanhos, quase pretos. Luisa sorriu. O homem também sorriu para Luisa. Abraçaram-se como se fossem íntimos. Repelida por um momento de lucidez, Luisa afastou-se. Pensou em chamar alguém da família. Desistiu.
Os olhos castanhos do homem aumentaram a dor de cabeça que sentia. Era insuportavel. Voltou até a porta, observou que ele havia sumido. Desesperou-se. Desceu as escadas correndo. No térreo do prédio, nua, coberta apenas por uma camisa velha do avô, Luisa chorou. Não sabia onde procurar o homem estranho. Sabia que era estranho, mas, sentia como se perdesse alguém próximo. Voltou ao quarto e enconstou a cabeça sofrida  no travesseiro. Caiu num sono leve. Sentiu as pernas serem acariciadas. Pensou na  brisa que fugia para dentro do quarto. Enganou-se. Virou-se para o outro lado da cama. Sorriu, reconheceu os olhos castanhos, quase pretos, do homem desconhecido. Beijaram-se com ardor, os dedos pesados do homem escalavam as longas pernas de Luisa. Subiram até a cabeça da menina e lhe agarraram os cabelos cacheados com força. Luisa pensou em gritar, mas, sorriu... sorriu e chorou. Ela e o homem desconhecido abraçavam-se como íntimos até adormecerem em um sono profundo.
Pela manhã, Luisa acordou com a cama forrada pelo sol quente que também aquecia os pés dela. Ainda de olhos fechados, virou-se. Ao lado, metada da cama desforrada. Correu para a sala, olhou-se no espelho. Perplexa com o que via, parou.  Diferente da noite anterior, os cabelos estavam pretos retintos, vestia uma camisola de seda longa e florida. Na cintura, nenhuma marca, nenhuma mancha de vinho. Soltou um grito agudo de dor, um grito profundo de quem recebe uma notícia trágica, a morte de um parente próximo ou o diagnóstico de uma doença sem cura. Empurrou o espelho que quebrou-se em vários pedaços no chão. Correu para a porta principal do apartamento.
Na esperança de encontrar o homem desconhecido, gritou por diferentes nomes. Lembrou dos olhos castanhos, quase pretos, sentiu a cabeça doer. Acalmou-se, buscou uma garrafa de vinho entre as bebidas que herdara dos pais, bebeu com voracidade. A bebida escorreu pelo corpo de Luisa, entre os seios presos a camisola de seda. No armário do banheiro, buscou os remédios que usava para dormir, engoliu todos de uma vez, escancarou as janelas, deitou-se na cama a espera do sono eterno.

4 comentários:

Eduardo Ferreira disse...

gosto da imagem da nudez colada ao vinho e tecido. um sonho bastante intenso.

maria tereza disse...

Era leitora de teu blog,sem saber qu eras a filha da Cristina. Hoje encontrie=m com ela e perguntei se era mesmo tu.Fiquei feliz em saber que aquela menina linda, que vivia as voltas com o ballet é hoje esta escritora delicada e com grande qualidade. Parabens! Seguirei te acompanhando por aqui.Agora menos anonima

Basile disse...

Gostei bastante do texto, só não entendi porque ela tinha que morrer no final. Parabéns!

Marcela Franco disse...

Mais um! Tainá, estou impressionada. Você nos toca a alma, sensível e calorosamente!