"É o amor o contrário da morte,
Não a vida, não qualquer vida".
Roberto Freire.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ao amor apenas

Era sábado. No fundo da casa, as crianças corriam e atravessavam o jardim para se refrescarem com os pingos de água que saiam turvos do jato mecânico para molhar as flores. Camila tinha as calças dobradas até um pouco abaixo dos joelhos. Os pés balançavam dentro da piscina e arremessavam com leveza alguns pingos para molhar o busto que já suava em bicas. Era aniversário da prima, Cristina. Do outro lado do jardim, uma mesa com três rapazes que tentavam impressionar Cristina com histórias fantasiosas sobre amor, intriga e sexo. Cristina sorria sem graça e desviava o olhar para o canto. Observava Pedro. Era introspectivo e, a primeira vista, inseguro. Mas tinha que haver algo de especial com o rapaz, algo invisível aos olhos, um perfume, talvez, o jeito como tragava o cigarro quase morto entre os dedos. Cristina o olhava com ternura, sorria invariavelmente para os outros meninos que tentavam impressionar, mas estava surda. Pedro nada lhe dizia. Nem se quer a olhava, tinha os olhos presos aos pés de Camila. Cristina não percebera. Não ouvia o barulho que faziam os meninos ao seu lado, as crianças que gritavam, as tias que gargalhavam estridentes. Cristina não ouvia nada alem da respiração de Pedro. Lentamente, sugava a fumaça do cigarro que prendia quase morto entre os dedos. Soltava com rapidez. Camila percebeu que Pedro olhava seus pés. Levantou-se da água, desabotoou a calça, tirou a blusa e pulou na piscina de biquíni. Foi até a outra borda, onde estava Cristina. Chegou perto, de mansinho, perguntou:
- O que está olhando, Cristina?
Cristina tratou de desviar o olhar. Apontou para a porta da casa e disse:
- Vamos, Camila. Ponha uma roupa e venha cantar os parabéns.
- Mas o que há de errado com o meu biquíni? Além do que, está calor. Quero ficar desse jeito.
- Não me aborreça, Camila. Hoje é meu aniversario.
- Não adiante, Cristina. Não vou trocar de roupa.
Enquanto as meninas discutiam se Camila deveria vestir-se, Pedro aproximou-se e disse:
- Deixe Camila ficar como quiser, Cristina, deixe.
A mãe de Cristina, já bêbada de wisky, dançava sozinha a música de Maria Betania que propunha “Eu quero ser possuída por você. Pelo seu corpo, pela sua proteção, pelo seu sangue. Me ama”!
Camila sacudiu a canga que lhe envolvia ao redor da cintura. Molhava-se apenas do suor que lhe escorria do rosto. Cristina, já tomada de raiva sentia-se inferior. Era mais bela que Camila, mas diante da ousadia de Camila que já rodeava no corpo as mãos volumosas de Pedro, sentia-se feia, inferior. Camila aproximou o rosto de Pedro, tocou-lhe a nuca com os lábios até que a respiração do rapaz fosse ouvida ofegante.
Era como se as crianças no jardim fossem invisíveis. O mundo era Maria Bethania a cantar: “Do teu corpo revelando o meu corpo. Como se o mundo fosse pela primeira vez. Você meu ponto de referência nesta cidade”. Cristina deixou que uma veia lhe escapulisse na testa. Era certo que estava nervosa. Ao sentir os dedos de Pedro pressionarem a curva da cintura, Camila gargalhou. Afastou-se do rapaz e encarou os olhos marejados da irmã mais velha.
- Não sejamos patéticos, vamos. – disse Camila a caminho da porta de casa.
Cristina deixou que uma lágrima lhe escorresse no rosto e secasse com o vento que anunciava a chegada de uma tempestade inesperada. Os poucos convidados que ainda restavam na festa, retiraram-se. Era apenas Cristina e Pedro. Camila entrou na casa. A música parou. Chovia forte neste momento. Cristina permaneceu ali mesmo onde estava quando via Pedro escorregar as mãos no corpo da irmã. A chuva lhe desmanchou o penteado e colou o largo vestido no corpo exuberante. Aquela cena cegou os olhos do amado. Pedro a olhava com a boca semi-aberta de desejo. Cristina gargalhou alto, assim como fazia Camila quando queria impressionar. Pedro aproximou-se e lhe pressionou os lábios com a boca entreaberta. Desabotoou o vestido e se amaram ali, no jardim purificado pela inocência das crianças que antes o habitavam. Camila assistia a cena pela fresta da janela do quarto. Chorava de raiva pois não amava Pedro, amava Cristina.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Olhos e mãos

A caminho do ponto de ônibus mais próximo, Ana apertava os passos. As pernas, de tão longas, quase enrroscavam-se uma na outra, fazendo um nó. O vento embaraçava o cabelo da menina com brutalidade. De modo que as mechas alvoroçadas lhe tapavam a visão. O trovão e as nuvens escuras anunciavam a chegada de uma tempestade.
Ana corria. A sacola de papel que guardava as laranjas rasgou. Ainda com os braços ocupados com outra bolsa que carregava os molhos de tomate dentro, a menina agachou-se e tateou o chão para tentar conter as laranjas que já rolavam entre os pés sujos do mendigo. Ana parou em frente ao homem baixo e sem dentes que completassem um sorriso de outdoor. Apanhou as laranjas e entregou ao mendigo.
As gotas de chuva agora já pingavam lentamente. Ana caminhou até a parada e encaixou-se entre aqueles que também esperavam com agonia a chegada do ônibus que lhes levariam ao conforto do lar. Do lado direito, o dono da barraca de ameixas tentava proteger as frutas da água cobrindo-as com o remendo de sacos plásticos. Ana aproveitou uma fresta no caixote para esquentar as mãos entre as frutas. No fundo da bandeija, sentiu a mais madura das ameixas. Achou que não deveria, de início, mas não resistiu em apertá-la até que o suco vermelho lhe escorresse entre os dedos. Deixou que um sorriso lhe escapulisse dos lábios. O corpo caiu levemente para trás, como se adormecesse. Sentiu a mão esquerda ser acariciada. Abriu os olhos. Era tímida e, por isso, ignorou o gesto de carinho. Ainda assim, não recolheu a mão, deixou-a solta, quase que oferecendo-a aos afagos do desconhecido.
O carinho na mão a fez lembrar um antigo caso de amor. Ligeiro, o homem que para Ana chamava-se Henrique mas que negava-lhe qualquer prova de identidade e referencia, lhe agradou apenas pelo modo como lhe conduzia as mãos. Sempre viu nobreza naquele gesto. O homem a conhecia apenas de tardes chuvosas como aquela, em um quarto abandonado no centro da cidade, onde as buzinas dos carros entoavam a sinfonia dos amores proibidos do meio-dia. Os dedos do amado desconhecido foram vistos muito antes dos olhos. Ana o descobriu quando jantava sozinha em um restaurante perto de casa. Sozinho também, o homem estava de costas. Bebericava um vinho de uma garrafa sem rótulo e escrevia pedaços de poesia no guardanapo. Ana esticava os olhos para alcançar o que diziam as letras em garrancho. Desistiu. No entanto, os olhos continuavam vidrados nos gestos das mãos do homem. No modo como carregava o copo até a boca, na maneira como posicionava a caneta em cima do guardanapo, como fazia sinais ao garçom sonolento.
Quando estavam na cama, depois do amor, costumavam brincar com as sombras dos dedos. Ana sorria como uma criança, gargalhava alto. O homem deitado, apenas olhava. Era raro vê-lo sorrindo. Por isso, Ana sempre viu tristeza nos poetas. Pensava que eles sabiam demais da vida e, assim, não sorriam das ilusões.
Outra ventania anunciou a chegada do sol. Ana entrou no ônibus. Olhou meio de lado para tentar encontrar as mãos que haviam lhe acariciado antes. Olhou nos olhos de todos que aguardavam na parada, um por um. Ninguém lhe deu atenção. Ana sentou-se na primeira cadeira da frente, o ônibus partiu com os olhos de Ana ainda abertos, revistavando a multidão.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O encontro dos corações livres

- Eu sinto que você me ama.


- Não tente falar de amor, Olga. - respondeu Mateus ainda com a boca marcada de vinho.


- O que foi que disse?


- Eu disse que você não deveria falar de amor.


Engatinhando, Olga aproximou-se do rapaz que esparramado na poltrona, no canto da sala do apartamento de um amigo próximo, tomava o vinho da garrafa. Olga parou, ainda com o mesmo olhar que lhe rendia um vinco entre as sobrancelhas. A expressão não poderia ser levada a sério quando se tinha os olhos repuxados como os de uma gueixa. Os olhos sorriam mesmo em momentos que exigiam a seriedade de um pai de família.


- Olga, a verdade é que te amo mas não tenho razões para discutir o meu sentimento com alguém que não me compreenderia. O amor não é você, não sou eu. O amor é o que está em nós, aquilo que me identifica a ti...



- É muito tempo para mim. Cansei... - disse a menina a dar com os ombros. Olga virou-lhe as costas e andou em direção ao espelho.

- De mim?


- Talvez.


- Você sempre cansa das pessoas.


- Daquelas que me dão tédio.

Nesse momento, Olga parecia assumir um outro corpo. Era como se nela existissem duas mulheres. Um metade era ousada como uma dançarina de boate. A outra, séria como uma freira casta. E era desse modo que se comportava sempre que a conversa assumia um tom apelativo, de lamento. Olga detestava lamento. Era prática.

- Agora você foi longe demais. Olha os lençóis daquela cama: testemunham o tédio, por acaso?


Olga não deu ouvidos ao rapaz. Se olhava no espelho ainda semi-nua. O corpo dela era miúdo mas nem por isso acanhado. Comportava-se como uma platéia sonolenta diante de um espetáculo longo demais. Sorriu de canto de boca e encostou-se na janela próxima ao espelho.


- A gente ainda vai se ver? - indagou Mateus que já cambaleava de bêbado.


- Acho que não - disse Olga que agora penetrava o olhar no casal do outro lado da rua.

Sentados em um banco cobertos pelos galhos da amendoeira que os protegiam dos últimos raios de sol naquela tarde de vento fresco, o casal trocava confidencias e semelhanças. Vez ou outra, a moça gargalhava e pendia o corpo para trás. O vento varria os fios do cabelo que cobriam o busto dela. Em instantes como esse, o rapaz aproveitava para aproximar-se um palmo do corpo da moça. Os olhos não negavam o tesão. A menina via-se cada vez mais perto do rapaz. Agora, conversavam ao pé do ouvido. Olga deixou um sorriso escapulir. No íntimo, gostaria de ser aquela menina que enfeitiçava os homens sem esforço. Estava cansada de conversas. Pensou que deveria se expor menos aos amantes. A sinceridade de Olga era assustadora. Por isso, agora, seria mais superficial. Para flertar com um rapaz usaria mais do cruzar de pernas do que das palavras.
Era como uma mãe que se despede do filho. Ainda maior era o lamento. Olga sentia o fim não porque amava Mateus, apenas pela triztesa do instante. Depois de apanhar a bolsa no chão, a menina seguiu em direção a porta. Mateus levantou-se da poltrona e tentou alcançá-la. Segurou com força o braço fino da garota que logo desprendeu-se das mãos do rapaz. Olga saiu e deixou a porta entre-aberta. Na fresta, via-se Mateus com olhos de esperança. Saiu do apartamento a caminho da casa de Penélope. Andou três quadras. Ainda nas escadas, encontrou a amiga apressada. Esbarraram-se e já morreram de rir.


- Aonde você vai? - perguntou Olga à Penélope.


- Por aí. Vamos?


- Estou com cólicas.


- Deve ser o Mateus.


- É! E adivinha? Ele me ama.


- Hum... - Penélope revirou os olhos.


- E você? Ama?


- Não mais.


- Não ama porque ele te ama?


- Talvez. Eu ame os momentos...


- Também odeio rotinas.


- Ele me cansa.


- Parece que nunca leu Roberto Freire - Sorriu Penélope.


- Nem nunca ouviu Gilberto Gil. - Completou Olga.


Olga e Penélope se olharam e gargalharam, novamente. Enquanto desciam a rua em busca do café mais próximo relembravam a letra de O seu amor, do cantor baiano.

"O seu amor

Ame-o e deixe-o

Livre para amar

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Ir aonde quiser

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

O seu amor

Ame-o e deixe-o

ser o que ele é

Ser o que ele é"!

terça-feira, 14 de abril de 2009

O menino anjo

Naquela madrugada Penélope não pregou os olhos. Logo cedo, o celular entoava a canção que dizia "When you give half of you, I want all of you". Tinha uma melodia suave. No mesmo instante, Penélope sentiu o mesmo cheiro doce do incenso que perfumava a casa do antigo amor. O ventou que corria para dentro do quarto de Penélope alisava os cabelos com alvoroço. Uma agonia que lembrava os dedos do velho amor embaraçando com brutalidade os finos fios do cabelo da menina. Penélope sorriu e revirou-se na cama. Ela sabia que aquela era uma manhã de terça-feira e o fim de semana estava longe. Mesmo assim, sorriu e não revirou os olhos. Estava cansada da última noite.
O telefone tocou na sala. Penélope resistiu e ignorou. Alguém do outro lado da linha insistia. Por um momento acreditou que fosse ele, o amor antigo que lhe pediria um reencontro apressado. Penélope resistiria. Era orgulhosa demais para se render ao pedido que não viesse seguido de suplícios, lágrimas, arrependimento. Não iria. Ficaria dormindo. Não atenderia o telefone naquele dia, pensou. Alguém do outro lado da linha talvez apenas quisesse uma palavra de conforto. Penélope iria até o telefone se soubesse que era Luana, para chorar as dores. Repensou e entendeu que estava em pedaços e, portanto, não poderia varrer os cacos de outro coração partido. Cobriu-se com o cobertor como que para esconder-se daquele do outro lado da linha. O telefone parou. Penélope sentiu-se aliviada.
Agora sem conseguir dormir, Penélope levantou da cama. Decidiu que não iria trabalhar. As mãos já suavam. Não sabia mentir, nem contrariar regras. Era rígida demais. "É por causa de pessoas como você que faço análise", disse sua tia certa noite de muitos goles de vinho. Penélope não ligava. Lavou o rosto, escovou os dentes e os cabelos, perfumou-se. Entrou no carro. Decidiu que dirigiria sem destino. Era o que sua mãe lhe propunha em dias de domingo quando a pista que beirava a orla da praia parecia deserta. Mas era uma terça-feira, dez da manhã. Os carros estavam enfileirados. Penélope ignorou as buzinas e seguiu à 60km.
No sinal, viu de longe um menino que sorria quando a mãe lhe empurrava na cadeira de rodas para o outro lado da rua. Ela era jovem. Ele gargalhava. Penélope prestava atenção na cena. O menino lhe encarou nos olhos, agora sério, parecia triste. Ela desviou o olhar. Parou o carro na esquina seguinte e desceu. Sentou no meio fio, tinha deixado a porta do carro aberta. Não ligou. Lembrou do irmão mais novo. Era também um menino alegre numa cadeira de rodas. Desabou em lágrimas ainda com falta de ar. Lembrou do que o médico lhe disse da última vez "É um milagre esse menino ainda estar vivo". Enxugou as lágrimas e pensou que o milagre era o próprio menino.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A metade de Penélope

- Eu já disse que vou... - respondeu Penélope ao revirar os olhos.
Tinha presa entre os dedos uma mecha de cabelo. Escutava com paciência a voz amorosa do outro lado da linha. Sorria nervosa e forjava interesse nas palavras do pretendente.
Bocejou. Esticou-se para olhar as horas no relógio da cozinha e lembrou que estava atrasada para a sessão de terapia.
Dessa vez, não era desculpa para livrar-se de uma conversa desinteressante. Penélope realmente iria à análise. Várias vezes faltou as aulas de ballet e espanhol. Mas nunca deixou de ir as sessões de terapia.
Desligou o telefone antes de qualquer convite indesejado. Aquele rapaz era apenas um passa-tempo. Disso, tinha certeza. Mesmo que fosse injusto definir assim alguém que lhe guardava algumas horas do dia. Não poderia ser o contrário, Penélope era uma sincera assumida. Não me interpretem mal. Penélope não era uma mulher amarga, embora preferisse a verdade. O menino do outro lado da linha - esse que não merece descrições - era uma distração para Penélope, que não gostava do tédio absoluto. A voz mansa do rapaz a alegrava. Passavam horas divagando sobre política e crimes de primeira página do caderno policial de algum jornal popular. Ela gostava de inventar histórias sobre a vida dos assassinos de sangue frio. Dizia que alguns eram bem casados e rezavam o terço com a sogra em missas de domingo. Outros eram amados acima da crueldade que exalavam até mesmo no cheiro do suor. O menino do outro lado da linha ouvia atentamente e , por vezes, intervia. Dizia que criminoso de capa de jornal tinha que apanhar muito. E que se fosse dele a filha que "aquele monstro" violentara, não pensaria duas vezes, deixaria o criminoso indefeso: "primeiro as orelhas, depois os olhos..."
Penélope interrompia e fingia concordar: "Eu faria pior! Por isso, prefiro nem dizer o que faria". E era verdade, Penélope era incapaz de matar uma mosca. Quando pequena, as pernas eram cobertas de feridas. Jura que nunca sufocou um mosquito na mão. Tinha pena. Assim como olhar nos olhos dos assassinos que eram expostos no programa policial lhe causavam aperto no peito. Sentia vontade de chorar. Mas segurava as lágrimas para não parecer irracional.
Chegou atrasada na análise. A psicóloga a aguardava em pé, encostada na porta. Laura recebia Penélope com a caridade de uma mãe. Ela lhe oferecia um abraço apertado e um pedaço de chocolate. Penélope preferia os lenços umidecidos com cheiro de rosas. Era ansiosa. As mãos suavam.
- Vai bem? Perguntou Laura à Penélope.
- Sim.
- E aqueles medos?
- Agora penso em viver.
- Como?
- É penso na vida. Eu olho meu pai, aquele homem e os cabelos brancos que ele colecina... .
- Saiu do hospital?
- Sim. Saiu do hospital. A médica lhe perguntou se preferia morrer a parar de fumar. Ele disse que ficaria com a segunda opção. Meu pai é um homem forte... quero ser igual a ele.
- Sua mãe também é forte?
- Mais do que imaginava. Mas deveria entregar-se com boa vontade à vida.
- Como?
O telefone tocou. Pediu desculpas a Laura e correu às gargalhadas. Subiu as escadas do prédio antigos às pressas. Ele estava lá. A porta já estava aberta. Ele estava no corredor, com os braços estirados e lhe oferecia um abraço. Não era um abraço de mãe. Era um abraço apertado de saudade seguido de um longo suspiro.
- Não achei que viria.
- Eu também não. Respondeu Penélope que não era acostumada com a impulsão.
Sempre foi racional. Mas tinha escolhido a vida. Tinha escolhido ser sincera com o mundo. O homem que a aguardava na porta de casa era o escolhido. Aquele que considerava o "Karma", o amante eterno, o homem da vida dela. Sem descolarem os corpos que já suavam de ansiedade e calor, entraram no apartamento. Ajoelharam-se no chão. Ele oferecia o corpo á Penélope, que logo aceitou o peso do amado.
- Desabotoa... - susurrou Penélope e deitou.

domingo, 15 de março de 2009

Os versos de Penélope

A voz inconfundível de Maysa no rádio implora por vezes "Ne me quitte pas, ne me quitte pas, ne me quitte pas". Sempre que escuta a canção, Penélope procura acompanhá-la com a tradução para o português, o que torna a letra ainda mais intimista e originalmente triste como a melodia.

Te oferecerei
Pérolas de chuva
Vindas de países
Onde nunca chove;
Escavarei a terra
Até depois da morte,
Para cobrir teu corpo
Com ouro, com luzes.
Criarei um país
Onde o amor será rei,
Onde o amor será lei
E você a rainha.

Esse é o trecho favorito de Penélope. Fazia-a refletir sobre o amor e o poder de encantamento imposto pelo sentimento. Para Penélope, a verdadeira essência do amor tornava os homens simplesmente amantes. O tempo não existiria, nem haveria razão para justificar-se por erros tolos. Em ebulição, o amor a tudo se permitia. E era na música de Jacques Brel que Penélope enxergava a lucidez do amor, a capacidade de tornar os amantes inconseqüentes, teimosos como crianças.

Eles - os amantes - querem o impossível. Querem se entregar ao objeto do amor e sentirem-se especiais em um mundo de semelhantes. Os amantes acreditam que não se trata de escolhas. Os homens devem estar preparados para a chegada do sentimento. A intensidade do amor é maior que as horas, os anos, as datas de aniversário do romance. O amor é sempre uma surpresa. Não é metódico. Não devemos ensaiá-lo. O amor é para ser vivido como se apresenta no primeiro momento. Não devemos questioná-lo, nem tentar moldá-lo ao nosso gosto. É como deve ser. O amor se molda nas circunstâncias do romance, não temos domínio sobre o sentimento. Inquestionável, o amor é tal como é. Vivê-lo e não confundir-se com ele. O amor é independente. Não o confunda com o objeto do amor. O amor é eterno. Deixa-nos marcas... O amor não se afasta de nós, está em nós. Vivê-lo é fundamental.
A água do café já borbulhava na panela. Penélope acordou. Levantou-se, desligou o rádio e gargalhou dos versos que se fizeram na mente durante o sono. Apagou o fogo e desistiu do café. Era hora de dormir.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A história preferida sobre um caso de amor


Conheceram-se na cidade céu. Ela carregava uma única
bolsa de mão, em que guardava livros velhos e folhas soltas com rabiscos de um romance que gostaria de ver, algum dia, na estante de alguma livraria famosa, sem pretensões de tornar-se uma Nobel de literatura. A cidade era nada familiar para quem vivera a maior parte da juventude olhando
as ondas do mar curvar-se aos pés, enquanto o vento revolto emaranhava os cabelos.
Sentiu-se só, desesperadamente só. Como uma estrela que na
singularidade daquele céu excessivamente extenso perde-se entre as outras radiantes. Num sopro do destino, enquanto apertava o copo de café para esquentar as pontas dos dedos,
ela deparou-se com o homem que lhe traria amor.
De maneira explícita, aqueles olhos miúdos do rapaz a
convidavam para aventurar-se em um romance que ainda não permitia definições e, finalmente, livrar-se da mesmice
de todos os dias.
Era como se estivesse hipnotizada pelo olhar convidativo
daquele desconhecido. Sem perceber, deixou que o café queimasse as pontas dos dedos. Estava desesperada com
a idéia de jamais atar-se a vida do homem.
Pensou no fracasso daquele amor sem lugar. Entristeceu
noite e dia. Então, permitiu-se esquecê-lo.
A moça do sorriso meigo e de flor no cabelo sentiu um
reboliço nos sentimentos. O tempo a fazia crer que aquele não e era encontro de Deus. Mas, bastava-lhe um olhar discreto e a flor desabrochava.
Queria aquele homem! Queria-o de amor e teimosia. Quando o perdeu de vista, Prometeu a si mesma, jamais envolver-se em abraços que não fossem fortes o suficiente para segurar o coração que ameaça escapulir pela boca. A promessa era em vão. Afogava-se em lágrimas, despedaçava-se por inteira de amor.
Desesperada, forjou um encontro. No meio da rua, em frente à casa do homem, mesmo sem saber se era casado, respeitado pai de família, correu em direção a ele
e não hesitou em pedir que ficassem a sós, despida nos braços do amado, que afagava seus cabelos com a delicadeza das mãos de um poeta.
Enfim, sorriu e não apenas com os lábios. Estirada, enquanto Téo brincava com os cachos dos cabelos de Alice, ela sentia o coração gargalhar.